Livros sobre livros (1)

Atualizado: 21 de out.

PHILOBIBLON / Richard de Bury
Passa este Philobiblon, de Richard de Bury (1287-1345), por ser o primeiro livro que se publicou dedicado, exclusivamente, à paixão pelos livros. O autor, sem dúvida um amante dos livros, foi bispo de Durham e chanceler do rei inglês Eduardo III.
Completado em 1344, em Latim, assim andou o livro, primeiro manuscrito, depois impresso, por essa Europa, primeiro na Alemanha, e ainda antes de 1600 em França e na Inglaterra, com novas edições nos dois séculos seguintes, sendo inglesa a primeira tradução em vernáculo, seguindo-se a francesa, ambas no século XIX (1832 e 1856). Mas, não há notícia de ter sido cá editado.
O exemplar de Philobiblon, em língua portuguesa, que aqui se traz é edição brasileira (Cotia: Ateliê Editorial, 2004), em tradução a partir da versão em inglesa por Marcello Rollemberg. Apresentado com um grafismo bem interessante, serve-nos, em cerca de 150 páginas de pequeno formato (mais umas 30 da apresentação e glossário, para totalizar 181), um Prólogo mais 20 capítulos do maior deleite para amantes desta espécie de objectos. ,"Uma peça histórica, pelo menos para aqueles que cultivam o amor pela palavra impressa e encadernada", é como o editor apresenta o livrinho, cujo título em latim tem sido mantido nas edições em línguas modernas.
Agora é tempo de passar uma vista de olhos pelo conteúdo, organizado em 20 pequenos capítulos.
A abrir, entre outros, (cit.) o propósito de purificar de todo [o] excesso [o] nosso amor aos livros; depois, lá para a frente, indo ao acaso, encontramos indicações sobre os cuidados a ter com os livros (cap. 17) – cuidado a abri-los e fechá-los, não os manusear com as mãos sujas, lê-los tendo o cuidado de limpar o pingo do nariz “para impedir que o livro que está logo embaixo de seu nariz fique manchado”, não dobrar o canto da página para marcar onde se interrompeu a leitura, e não comer, nem beber em cima do livro aberto; adverte ainda contra “certos ladrões que mutilam os livros sem a menor consideração , e para escrever suas cartas recortam as margens das folhas, não deixando nada além do texto, ou então arrancam as folhas finais do livro para seu uso e abuso particulares”.
Antes, o reverendo contara (cap. 8) como resgatou livros e simples manuscritos, desprezados e maltratados em bibliotecas conventuais, a que juntou o produto de compras que fez a livreiros e antiquários, em Inglaterra, França, Alemanha e Itália, com os quais se pôs em contacto; e declara: “Para trazer-nos os livros desejados, nada nos amedrontou, nem as distâncias, nem o furor do mar, nem os gastos”.
Comprar livros de bom grado, mas vendê-los com repugnância”, é um dos princípios que segue (cap. 3), uma filosofia que prescreve, apoiado em Salomão, juntando-lhe o exemplo, enquanto compradores de livros, de Aristóteles e de Platão.
Para terminar esta nota, acompanhemos o autor (cap. 18) na defesa contra os detractores do prazer bibliófilo. Citamos: "Há que prefira consagrar-se à arquitectura, outros à navegação, outros à agricultura, ou à caça”, outros ainda aos exercícios da guerra e do jogo. Ora, defende o nosso autor, “nada há de estranho que a nós [bibliófilos] tenha cabido a preferência do honesto prazer dos livros [...], no qual o nosso espírito encontrou a tranquilidade e o descanso. Calem-se, pois, os insidiosos e deixem de difamar com seus comentários satíricos o que desconhecem”.
Reter, portanto: Philobiblon: mui interessante tratado sobre o amor aos livros, tradução, apresentação e glossário de Marcello Rollemberg, ed. Cotia (SP, Brasil): Ateliê Editorial, 2004.
Sebastião Baldaque scripsit.

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